Eu conto o que está acontecendo

Hoje, faz exatamente sete meses que nos deparamos com um improvável diagnóstico: câncer. Improvável, digo, porque o câncer é como aquelas doenças surreais demais para acontecerem justo com alguém tão próximo. E aconteceu com ela, meu amor.

Desde então, eu que sou “palavreadora” por formação acadêmica, ofício profissional, e por plena devoção, fui calada. Tentei substituir minha habilidade de encontrar as palavras certas pela empatia. É que todo consolo corre o risco de ser um gatilho contra a dor alheia. Infelizmente, não detive de poderes para impedir que outras pessoas o acionassem. Logo de início, Lore pode ouvir “tudo isso passa rápido“; “por que logo com você?”; Deus sabe o que faz“; “é um momento de repensar a vida, e tirar uma lição de tudo isso“; “o seu câncer é o de menos, tem níveis piores“; “cabelo é vaidade, já já ele cresce”. 

Embora revoltadas com algumas dessas frases, especialmente com aquela em que a sabedoria de Deus é demonizada, sabemos que a maior parte de quem as profere o faz por não saber lidar com a própria impotência. Não à toa, muitas se afastam do convívio social de pessoas doentes pela malfadada incapacidade de fazer, falar ou colaborar na dada situação. Não as culpo. Ninguém sai se preparando vida afora para reagir a uma doença em seu cotidiano. Mas também não culpo, obviamente, a Lore por se sentir mal ao ver poucos vestígios de empatia ao longo de todo esse tratamento.

Eu mesma me sinto uma pessoa menor quando só me resta dar um abraço apertado a ela, durante seu choro incontido. Em parte, é para que ela encontre em mim a fortaleza que necessita e protagonize a própria dor. Contudo, nada aplaca seu ressentimento com esse processo que promete se arrastar até depois de sua última quimioterapia – agendada para daqui a um mês.

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De perto, observo seus resmungos frente ao espelho por não se reconhecer ante a falta de cabelos e pelos; ante à falta de destreza para desenhar a sobrancelha inexistente, às manchas na pele, cicatrizes de pequenas cirurgias, e frente ao desaparecimento de veias corroídas por medicamentos. Quem a vê, falante como sempre, tentando levar a vida normalmente, ignora seus suspiros de cansaço, suas pernas bambas ao caminhar, suas dores nas costas quando a medula trabalha para recompor imunidade, suas dores no estômago maltratado por medicamento, sua indisposição nos dias pós-quimioterapia. É possível que a única pessoa que a vê desnuda completamente seja eu. E olhe lá muito “talvez”, pois desconfio dos sentimentos escondidos lá no seu íntimo e pouco compartilhados para não me preocupar. Nem mesmo a mãe e irmã, que a acompanham a cada quimioterapia, têm acesso a essas aflições.

Do nosso lado, está o compromisso de estruturar tudo, da melhor forma possível, para garantir seu bem-estar. As preocupações da casa são minhas, assim como os cuidados para que a pré e a pós quimioterapia sejam amenas. Mesmo assim, não consigo dispensar o auxílio da sogra e da cunhada, que dividem a função de acompanhantes, faxineiras, enfermeiras etc. Mas não se engane: nada disso quer dizer que ela descanse.

Como tem sido o tratamento

As primeiras quimioterapias foram muito exaustivas. Febres costumam significar infecção, o que um paciente com câncer não pode contrair de forma alguma. Por isso, o mínimo sinal de febre alta nos levava, de pronto, à emergência de hospital. Cheguei a deixar listado em um pequeno bloco pessoal tudo o que não poderia faltar em caso de internação. Somos apenas as duas em nossa cidade, familiares moram distantes, por isso, eu deveria contar só comigo em caso de urgência dela. A irmã comprou uma caixa de máscaras hospitalares para que ela pudesse evitar contaminação em locais públicos. A mãe deu dicas de sucos de inhame, graviola e afins para elevar imunidade.

Aos poucos, entramos na rotina de tratamento. Em hipótese, sabíamos qual remédio dar para prevenir as náuseas e enjoos, quantos e quais dias de total mal estar, em quais deles abria a janela imunológica, o que fazer e o que não fazer. Ter uma dinâmica deixaria o tratamento mais prático e facilitaria tanto a vida dela quanto a nossa. Quimioterapia até passou a receber o apelido de colega próximo, “quimio”. Pobres iludidas! Mais que de uma hora para a outra, o corpo revelou que a dinâmica dele era diferente da nossa. Previsibilidade só de, no máximo, duas quimioterapias.

O acúmulo de medicamentos em seu organismo, porém, nos deu um outro parâmetro sobre exaustão. Cada quimioterapia passou a ser única com seus infortúnios. Lore enjoou remédios, comidas e  água. Brinquei que não a beijaria em época quimioterápica para que não enjoasse meus beijos. Vai que…! Pratos passaram a ter prazo de experimentação, a estratégia se tornou não repeti-los em sequência. Haja criatividade na cozinha, God! A imunidade caía quase nada na semana da quimio; ou despencava levando laboratório ligar para Lore alertando-a sobre leucopenia (baixa de leucócitos). Recentemente, lançamos mão de dopá-la no dia do tratamento, como forma de amenizar seu mal estar. Tem dado certo (seja lá o que signifique), salvo ela se sentir muito lesada nos dias seguintes.

Estamos cansadas pra dedéu. Mas o cansaço real é dela, da Lore que deseja viver sem restrições, se amar novamente, voltar a lecionar, e que cansou da pauta “linfoma”. Por essa razão, a entendo muito quando diz que tem vontade de desistir, mesmo sabendo que essa não é a opção.

Depois de amanhã, é antepenúltima quimio. Enquanto para alguns falta ~tão pouco, para ela, faltam meses e até anos. A certeza da remissão pode vir (e virá!) em, aproximadamente, dois meses. Da cura, em cinco anos. O exame que ela fará no primeiro mês de 2016 irá indicar a necessidade, ou não, de radioterapia. Como Lore afirma, a ansiedade é pelo dia em que ela irá se reconhecer.

Há dois dias, perguntei o que queria de Natal. Ela disse que não sabia me responder… Se eu pudesse, daria a ela o salto no tempo. No tempo, em que, oxalá, estaremos brincando de ser feliz.

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Um pensamento sobre “Eu conto o que está acontecendo

  1. Só você para me ler como me lê, e traduzir em texto o muito que me vai por dentro. O muito que, de fato, ainda não é tudo, pq nem eu sei o tamanho que esse tudo alcança.
    Obrigada pela dedicação, pela empatia, pelo colo, pelos braços que me ajudam a carregar esse corpo cansado, pelo ombro onde deito a cabeça, pela criatividade culinária, por tantas e tantas vezes pensar em mim antes de ti, sendo que você também precisa de você. Obrigada por personificar a palavra companheirismo. Eu não sei onde estaria sem você.
    Te amo.

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