A história que faltava contar

Chegou a minha vez de sentar em frente ao pc e tentar escrever essa história. Que história? – alguns se perguntam. Uma história que se passou há algumas semanas, quase um mês atrás, e sobre a qual eu prometi que escreveria assim que as personagens principais dela tivessem digerido tudo o que se passou e estivessem prontas para expô-la ao mundo. Era o mínimo que eu poderia fazer afinal, como eu disse, não sou eu a personagem principal da história. Mas prometi que registraria meu ponto de vista de tudo o que se passou.

Bom, mas antes preciso falar do início de tudo, de como conhecemos as personagens e por qual motivo.

Eu sempre quis ser mãe, é um sonho que eu tenho desde criança. Brincava de bonecas já pensando no dia em que teria um pequeno ser humano nos braços, sonhando com esse dia. Cresci e a ideia maternal cresceu e amadureceu dentro de mim, mas nunca deixou de ser uma certeza: eu seria mãe. Felizmente, a mulher que escolhi para ser minha companheira de vida “veio” com os mesmos sonhos e vontades que eu, e a conversa sobre filhos sempre foi uma constante no nosso relacionamento, desde o início. Sempre tivemos muito certo, também, que este sonho se realizaria quando tivéssemos o mínimo de estrutura (financeira, pessoal, profissional) para dar a um filho o que ele merecia ter. Como eu digo sempre, se relacionar afetivamente com alguém do mesmo sexo pode ser muito trabalhoso e trazer alguns empecilhos a quem quer ser mãe/pai, mas tem uma vantagem: gravidez indesejada não acontece, o filho tem a chance de ser muito bem planejado e querido pelo casal, antes de chegar. Por isso, não temos motivos pra colocar o carro na frente dos bois, como se diz.

Ainda assim, eu confesso, cheguei a uma idade (e a Lu também) que os hormônios já fazem festa dentro de mim e meu útero dá gritinhos desesperados toda vez que vejo um bebê, uma criança, ao ponto de sonhar com os filhos que virão, constantemente. Por isso, ou como causa disso, eu comecei a ler blogs (amo ler blogs) de mães, da chamada blogosfera materna, há algum tempo, e até já comentei sobre isso aqui. E entre os muitos (MUITOS) blogs maternos que eu leio, eu descobri o universo da maternidade lésbica, blogs de casais de mulheres que têm seus filhos (pelos mais diferentes métodos) e dividem suas experiências com outros casais que estão (ou estarão) no mesmo barco. Nesse universo, conheci (conhecemos) muitas pessoas interessantes, fizemos amizades, acompanhamos nascimentos, crescimentos e desenvolvimentos dos “filhos dozotros” por meio da internet. E foi nesse meio também que conhecemos duas das três personagens principais dessa história: a Vivian e a Camila.

Acompanhamos sua trajetória desde o início do blog, de quando a gravidez era um sonho “pra daqui a pouco”, a tentativa de IA* sem sucesso, toda a tristeza subsequente até a decisão de partirem, então, para outra forma de maternidade: a adoção. Esse processo durou mais de ano; mais de ano que nós acompanhamos essa história, trocando mensagens, comentários nos posts, recados no Facebook. Até um mês atrás éramos “amigas virtuais” não tão próximas, apesar do carinho e da torcida para que essas mulheres conseguissem realizar seu sonho de mãe. Foi quando recebemos um email, nos pedindo dicas sobre BH, pois elas precisavam vir para cá. No início, não nos contaram para quê, mas obviamente que desconfiamos para o que seria, afinal, nós líamos sobre o processo de adoção no blog delas e sabíamos que elas aceitavam crianças de outras comarcas, que não a de sua cidade. Ficamos empolgadas imaginando que poderiam, finalmente, ter encontrado seu/sua filho(a) aqui, mas não perguntamos nada no momento, não queríamos forçá-las a nos dizer algo que não fosse da vontade delas dizer. Nos prontificamos imediatamente em ajudá-las aqui em BH, procuramos hotéis onde pudessem se hospedar, pesquisamos passagens, nos colocamos a disposição para dar qualquer informação que elas precisassem. No final das contas, tivemos a mesma ideia, mas foi a Lu quem verbalizou primeiro: “amor, por que não as convidamos pra ficarem aqui em casa?”.

Pausa pra dizer que nossa casa é micro. Moramos numa casa de três cômodos + banheiro. Temos apenas um quarto, uma sala onde só cabe um colchão sobressalente, e a cozinha que, bem, acho que não é convencional oferecer a cozinha como quarto às visitas. Então tínhamos consciência de que nossa casa não oferecia conforto, luxo e que seria até difícil de acomodar mais duas pessoas, mas resolvemos oferecer assim mesmo, porque seria mais barato para elas e porque temos muita satisfação em receber as pessoas aqui, ainda que moremos numa ervilha.

Oferecemos a casa e falamos sobre a falta de espaço e tudo mais, e para nossa surpresa, elas aceitaram imediatamente. E enfim nos contaram o motivo da vinda. Nós estávamos certas em nosso pensamento; era a filha que finalmente havia chegado! Elas haviam finalmente conseguido a guarda de uma menininha de 2 anos, que morava num abrigo aqui em BH. Nos mostraram a foto pelo email e nós duas morremos um pouquinho, de amor, de alegria, pela criança linda, pequenina e de olhinhos tristes da foto. Ela finalmente conheceria o amor de não apenas uma, mas de duas mães! Aqueles olhinhos tristes conheceriam uma nova expressão, disso nós tínhamos certeza.

Com tudo acertado, as duas saíram de sua cidade numa quinta à tarde, de carro (passagens de avião muito caras) e dirigiram direto, sem parar, até chegarem em BH, na sexta de madrugada, mas não vieram direto aqui para casa. Pararam num posto, cochilaram, tomaram um café e foram resolver tudo relativo à pequena, ainda na sexta. Enquanto isso, eu e a Lu, no trabalho, contávamos os minutos para chegarmos em casa e podermos finalmente encontá-las (e conhecê-las!). É engraçado pensar que foi a primeira vez que nos encontramos, porque o sentimento era de que eu já as conhecia de longa data. É verdade que acompanhávamos o blog, mas nunca havíamos nem nos falado por telefone (a não ser naquele mesmo dia, que a Camila me ligou para dizer onde estavam). Ainda assim, eu sentia que estávamos nos reencontrando, e não que aquela era a primeira vez que nos víamos pessoalmente. A vida tem dessas coisas.

Aquela noite foi difícil parar de falar. As duas queriam nos contar tudo o que tinha acontecido, e nós queríamos saber tudo! Elas já haviam ido ao abrigo, já haviam conhecido sua menininha, e estavam extasiadas de felicidade. A animação era tanta que mesmo sem ter dormido nada aquela noite, permanecemos conversamos até depois da meia-noite, nós quarto, e foi difícil parar. Mas paramos, afinal, no outro dia começava a luta de verdade, a convivência real com a filhinha que havia acabado de chegar. E que luta seria…

Não vou me alongar em descrever os dias que se passaram, até porque esse post JÁ ESTÁ longo demais. Mas eu preciso dizer como tudo o que aconteceu nos marcou. Primeiro, que adoção sempre esteve em nossos planos, nós duas queremos muito adotar. Mas nunca havíamos imaginado como era realmente o processo, não só o burocrático, mas como era receber seu filho já formado, já nascido, já com uma história de vida, ainda que curta. Não sabíamos das dificuldades de adaptação e pudemos ver de perto o sofrimento da rejeição, e isso nos marcou demais. Porque a adoção é uma via de mão dupla, não são apenas as mães, os pais, que adotam o filho… o inverso precisa acontecer também, e muitas vezes essa é a parte mais difícil. Sabíamos, nós víamos, que aquelas duas mulheres tinham muito amor pra dar para a criança que as escolheu (porque eu acredito nessas coisas). Mas como exigir que uma criança, que nunca conheceu o amor, compreenda isso? Como exigir, por outro lado, que uma mãe cheia de amor não se machuque ao perceber que a imensidão do seu sentimento ainda não atingiu o coração da criança que será seu filho? Presenciar aquela situação mexeu demais conosco, nos amadureceu muito. Eu, que sou mais “manteiga derretida”, digamos assim, não consegui não me envolver até a cabeça no sofrimento daquelas mães (e daquela filha) que passavam por aquilo tudo na minha casa, na minha presença. Ao mesmo tempo que eu sofria junto, não conseguia ajudar da forma como eu gostaria. Não queria me fazer de intrusa naquela história, afinal, elas precisavam vivê-la enquanto família que estava se formando, e eu sentia que nossa interferência poderia ser mais prejudicial do que benéfica. Em contrapartida, não podia virar minhas costas para a situação, afinal eram minhas amigas ali, eram pessoas que eu gostava, que eram importantes pra mim e que eu não queria ver sofrer. Mas elas estavam sofrendo, e eu também, por tabela.

Nós ajudamos como pudemos, apoiamos como pudemos… E, graças a Deus e a bendita assistente social, o pior passou. Que alívio foi chegar em casa, depois de um dia tenso no trabalho (em que eu fiquei angustiada, chorei muito, rezei muito, finalmente escrevi um email para as meninas com tudo que estava passando pela minha cabeça no momento) e encontrar a Vivian sorrindo (sem lágrimas nos olhos, que me partiam o coração, finalmente) e a Camila com o semblante bem mais tranquilo, aliviada, e a pequena calma, deitadinha, com suas bonecas. Aquele dia eu havia saído de casa e deixado três pessoas em frangalhos; voltei e encontrei PAZ. Sim, as coisas não estavam 100% ainda. sim, havia um caminho longo, bem longo a ser trilhado. Mas agora eu conseguia acreditar que as coisas realmente aconteceriam como deveriam acontecer, no seu tempo, mas aconteceriam.

Como nós já dissemos para as duas, eu e a Lu somos privilegiadas por termos acompanhado essa história de perto. Nos sentimos assim porque, em uma semana, vimos uma família se construir em nossa frente, em nossa casa, diante dos nossos olhos. Vimos a alegria sem fim de uma perspectiva; vimos o sofrimento e o impacto da primeira realidade, as dificuldades de uma situação para qual mãe nenhuma se preparou, jamais, na vida; e vimos os cacos serem remendados, os laços começarem a ser construídos, o amor começar a tomar forma, bem diante da gente. E eu garanto para vocês, nunca presenciei nada mais mágico em toda minha vida! Ouvir o primeiro “mamãe” de uma criança, quando ela ainda nem sabe o que é uma mãe, pra que serve essa mãe e o tamanho do amor que contrói essa mãe; ver os sorrisos sem fim das mulheres que, até ontem, eram apenas mulheres e, agora, diante do som dessa palavrinha mágica, se tornam a razão da vida de uma criança; ver os dois olhinhos negros e tristes da foto do email ganharem luz e um sorriso de genuína felicidade, ainda que eles não compreendam perfeitamente o que está se passando em sua vidinha, porque até então não conheciam o sentimento que vão acompanhá-los, agora, para o resto da vida: o amor de mãe.

Acho que só mesmo quando for a nossa vez, o nosso momento de viver tudo isso, vou conseguir sentir algo tão forte quanto senti nessa uma semana em que recebemos a Vivian e a Camila em nossa casa. Mesmo hoje, relembrando aqueles dias enquanto escrevo esse testemunho (gigantesco), sinto uma reviravolta de sentimentos, revivo muito do que aconteceu. Ontem mesmo a Lu comentou comigo, enquanto líamos o post mais atual no blog delas “é como se vivêssemos tudo de novo, né?”. É, é sim, porque de tão intenso, ficou marcado bem forte nos nossos corações. Sentimos uma alegria imensa em saber que essa família está, hoje, formada. Sentimos um orgulho gigantesco dessas duas mulheres, que conseguiram lidar com seus medos, suas inseguranças, abrirem seus corações, se despirem de seus preconceitos, para acolher uma criança carente de amor. Sentimos saudades dos dias intensos que passamos juntas, das alegrias que dividimos, dos papos, das risadas, das gracinhas, do cheiro de criança em casa, da vozinha, do sorriso com poucos dentes e cheirinho de mingau. Sentimos, principalmente, gratidão por essa família ter nos acolhido (bem mais do que o inverso, como elas pensam) em seus corações e ter nos permitido fazer parte da sua história.

Amadurecemos muito, eu e a Lu, com essa experiência. Compreendemos que  maternidade é uma coisa muito maior, ainda mais grandiosa do que supunhamos. E continuamos sonhando com ela, continuamos sonhando inclusive em adotar uma criança, mas hoje temos consciência, por termos visto de perto, que não é um sonho cor-de-rosa. Ela exige maturidade, além de todo o amor do mundo. Compreendemos que temos um caminho bem longo até darmos o passo da maternidade. Mas hoje, graças a essa oportunidade que tivemos, sabemos que o caminho não é só flores, mas também não será só pedras. E, principalmente, sabemos que teremos o apoio das amigas queridas com quem dividimos dias intensos de  alegria, tristeza, emoção e amizade, que jamais esqueceremos.

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6 pensamentos sobre “A história que faltava contar

  1. Queridas, vocês se tornaram da noite para o dia amigas de infância, da vida toda. Como chorei aqui lendo tudo isso, mesmo tendo acabado de escrever sobre, mesmo tendo vivido tudo isso… Essa história não é nossa apenas (minha e da Cah), ela é de todas nós. E eu sei que em breve vocês mergulharão na aventura da maternidade e lembraremos juntas tudo isso mais uma vez….. Queremos estar sempre por perto, sempre respirando essa energia maravilhosa que vem de vcs, fazendo desses 1 mil km quase nada.
    Obrigada por tudo (não canso de agradecer), obrigada por estarem em nossa vida, por nos receberem com toda essa sensibilidade e carinho, por permanecerem fazendo parte dos nossos dias! Beijo gigante!!

  2. Eu acredito que não haja mais nada para eu acrescentar, mesmo que tenha sido um relato da Lore! Simplesmente porque, embora não tenhamos tido uma conversa aprofundada sobre todos os acontecimentos, nós compartilhamos as mesmas ansiedades em receber a Cah e a Vivian e, logo depois, a pequerrucha; dividimos a mesma alegria em tê-las em nosso lar, e ainda compreendemos conjuntamente como casar é também ter força para o que der e vier.

    Tê-las acolhido “não foi nada demais”. Se pudéssemos, teríamos feito algo que realmente isolasse vcs de todo e qualquer sofrimento. Mas ainda que imaginem que tenhamos feito, isso não foi para ter gratidão ou amizade em troca; não foi para ter naada, absolutamente nada, em troca. Pois tê-las visto, de fato, imergindo de mãos dadas em um breu, e saindo desse – com mais mãos dadas – iluminadas, foi como se tivéssemos sido recompensadas, sem sabermos o porquê.

    Para melhor compreensão, é como se tivéssemos tido sido bem recebidas em uma festa para a qual não havíamos sido convidadas e para a qual não dispúnhamos de trajes a caráter. Vcs sorriram pra gente, e nos deixaram participar de algo tão íntimo e familiar. Até a pequena (#suspiros) nos fez sentir à vontade. Foi confiança, na certa!

    Por isso, obrigada mesmo, meninas! Obrigada por terem nos ensinado como casal, como mamães, como filhota, como gente de pele, sensibilidade e de muita força de vontade.

    Acabou que essa história nos deu respaldo, inclusive, para nossos projetos de maternar – além da oportunidade de ter conhecido pessoas incríveis.

    Desculpem qualquer coisa! Ainda estamos aqui, todas duas, coração! :***

  3. Pois é meninas…. assim vcs acabam comigo.
    Não sou boa com as palavras como a Vih, mas qria deixar registrado que é reciproco todo esse carinho.
    Eu sou daquele tipo que tem poucos amigos, mas que os tem desde 6 anos e q fala com eles quase sempre. E vcs, pra mim, estão nesse patamar.
    Sou uma mineira do interior, apegada demais ao que meu coração se encanta e ele se encantou por vcs.
    Nem sei bem como expressar. Mas como minha mãe dizia, “A boca que a de meus filhos beija, a minha adoça” e ver o carinho que vcs tiveram com minha filhota foi lindo demais.
    Obrigada por nos receberem não em suas casas, mas em seus corações.

  4. a história é linda… dificil de ser expressada em palavras, mas dá pra parar de fazer eu chorar ????

    Cada hora um comentario novo, uma declaração de sei lá o que…

    que saco… borrei meu rimel !

    Piu

  5. Porque amor de mãe é a melhor coisa do mundo, e não importa se são duas mães, se a mãe é pai, uma avó, um tio ou amigo da família.
    Tenho certeza de que vocês serão ótimas mães quando chegar a vez de vocês, meninas.

  6. É muito emocionante ler a mesma história contada por corações diferentes!!
    Que a pequena se sinta tão privilegiada, como eu nesse momento, por ter tantas pessoas que a amam e por ter duas mães maravilhosas!!
    E eu até tava chorando,mas depois do rímel borrado da Piu,nem dá,né?? kkkkkkkkkkk’
    Beijos a todas!

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