"Meu sonho é a minha realidade"

Há pouco mais de duas semanas, tudo mudou.

Após uma semana de pesadelos com dentes caindo, enchentes e lágrimas desesperadas, eu vi essas correrem pelo rosto da minha mãe ao revelar a ela que eu me casaria com ninguém mais, ninguém menos que uma mulher.

Ela não esperava aquilo, eu não a preparei, como acusaram os meus dois irmãos mais velhos, e o zelado sonho da senhora de 68 (às vésperas de 69) anos foi destruído por uma tsunami. No momento em que ouviu o meu segredo, palavras vãs e vis saíram da boca daquela linda senhora negra, que varreu chão, limpou banheiros e costurou fios horas a fio, para criar uma mulher independente que casasse com um homem bonito, integro e ambicioso.

Eu? Egoistamente, comportei-me com a mais maravilhosa das sensações de “ufa!”. Nós não nos encontramos em sentimentos: ela virou o rosto pra mim, enquanto eu pedia para que ela me falasse o que viesse em sua cabeça, independente de ser ofensa. E ela ofendeu, aproveitou para revirar o baú de mágoas familiares, desabafou o que já sabia. Eu, novamente? Não senti remorso algum. Era a minha mãe, era o direito dela se sentir traída, amargurada ou o que bem quisesse. Como eu disse, ela tem praticamente 69 anos, uma cultura afixada, e muitos calos nas mãos e nos pés. E, apesar de nada disso ser justificativa do desgosto que ela sentiu, eu me coloco no lugar dela, como se eu implorasse que ela se colocasse no meu.

Pois o meu lugar é de uma mulher apaixonada e muito amada, que sabe que escolheu a mulher mais bonita, íntegra do mundo, que tem a ambição de crescer junto comigo e construir uma família. O que mais eu poderia pedir a Deus? É justo que eu ainda peça a compreensão da minha mãe? Não, não é, mas eu peço sim. Afinal, estou agindo egoistamente, mas sem desejar o mal de ninguém, senão o meu bem.

Hoje, estou morando junto com um amigo (sem internet, atualizações de blog mais demoradas, rs), enquanto aguardo chegar 10 de junho deste ano, e a minha mãe respirar um pouco mais. Recebi o apoio de quem eu mais desejava: meu irmão mais velho; de brinde, veio o apoio da irmã que eu imaginava que me ignoraria; o abraço gostoso do meu sobrinho, de 17 anos, que finge que o mundo não o incomoda; o silêncio consentido de um (outro) irmão interesseiro, além do pedido da minha mãe para que eu não conte nada ao meu pai.

Nesse ínterim, senti-me deslocada do mundo, mesmo debaixo de um teto. Fiz “cara de tudo bem”, quando eu queria colo. Aprendi a lidar com a minha dor, como sempre o fiz: enfrentando-a cara a cara. Não senti arrependimento, mas senti culpa. Desfiz-me da culpa e liguei o “seja o que Deus quiser”. As minhas noites voltaram a ser bem dormidas, sem pesadelos. E eu continuo achando que essa foi a minha hora. Como ela está sendo desde que Lorena entrou na minha vida, me mostrou o que é o amor e eu decidi não deixar esse sonho passar.

Como disse a Du, por telefone, numa noite em que eu estava sentada no chão e chorosa, “meu sonho é diferente do sonho de muitas pessoas: ele é realidade”.
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10 pensamentos sobre “"Meu sonho é a minha realidade"

  1. É o nosso sonho e é a nossa realidade. E a dona Du sempre tem as palavras mais certas, né, amor, “quem tem fé não tem medo”, sempre me lembro desse conselho dela. 🙂

    Engraçado que, apesar de termos famílias tão diferentes, nossas histórias tiveram tantas coisas em comum. E é isso que me deixa mais esperançosa de que tudo vai dar certo no final, sabe. Eu vejo que as coisas já melhoraram pra mim, com a minha família. Tenho certeza que melhorarão aí tb. E, diferente de mim, amor, você é uma mulher destemida e forte. E eu sei o que você vai me dizer, que não é forte, que morre por dentro enquanto se faz de forte… mas a sua força não está em fingir firmeza. Está em correr atrás do que você quer e não deixar NADA nem NINGUÉM te dizer que você não conseguirá. Sua força está na sua fé. E eu sou a mulher mais orgulhosa DO MUNDO por ter você ao meu lado, na minha vida, para sempre. 🙂

    Continuemos sonhando e realizando nossos sonhos. Eles ainda são muitos, o caminho é longo. Dá cá a mão. Sigamos. 🙂

    Eu amo você.

  2. “Afinal, estou agindo egoistamente, mas sem desejar o mal de ninguém, senão o meu bem.”
    Sabe que me enxerguei nesta frase?

    Pow Lu… tu não imagina quanto eu chorei agora lendo teu texto, aquela vontade maluca de te dar um abraço voltou com toda força do mundo! E eu vou dar este abraço, em vocês duas juntas. Prometo.

    Amo vocês.

  3. É difícil para uma senhora de 69 anos, com princípios bem arraigados e com toda uma 'certeza' de vida guiando seus sonhos, sabe. Entendo sua mãe e te entendo também. Saiba que ela te ama e muito, só não está sabendo lidar com toda essa descoberta. Algum dia tudo ficará bem, tenha certeza disso.
    Mas, sabe, muitas vezes é melhor não contar….Sei lá, a dor é grande para todos os lados. O melhor é a nossa verdade, isso é que importa. Sua mãe, talvez, não tenha estrutura para saber de tudo. Não sei….Apenas uma opinião. Mas seja feliz, sem culpa!
    Deus te abenções!

  4. Oi meninas! Como vão??

    Postamos o convite do nosso encontro do mês de Abril do Grupo de Mães e Pais homossexuais Pequena Sementeira.
    Será no dia 17, a partir das 15h00.
    Contaremos com a presença de um especialista e conceituado na área de reprodução humana.

    Teremos tbém, a participação da equipe do 'Fantastico', onde irão conhecer o nosso grupo e posteriormente gravar uma matéria.
    Deixando claro que o encontro não será televisionado, os casais que tiverem interessem em dar entrevista, ficarão no Casarão após o termino do encontro, onde será gravada a entrevista.

    Divulguem se puderem, o encontro será maravilhoso!

    Contamos com a presença de todos!!

    Beijos

    Gy e Su

  5. Lu, receba um abraço apertado. Mais um.

    E de fato, o sonho de vocês é realidade – ele foi sonhado junto.

    Um beijo, minha linda!

  6. Olha, eu até entendo o quão deve ser difícil para sua mãe entender e abrir mão das expectativas que tinha sobre o seu futuro, porque mãe é um bichinho egoísta (eu sou, posso falar com conhecimento de causa agora), que passa trocentos anos planejando uma vida pra gente na cabeça delas e quando a coisa não vai do jeito que ela (eu tb) queria, ui, é um deusnosacuda sem tamanho. Mas a parte boa disso é que, na maioria daz vezes, depois de digerir a notícia, as mães costumam ser boas companheiras. E os pais também (com um pouco mais de resistência, e desde que não se sintam traídos). Euzinha acho, na minha humilde opinião, que você DEVE contar a ele. Por ele e por você. Só aí você saberá, definitivamente, em que terreno caminha. No mais, nós humanos, somos completamente adaptáveis, só precisamos de tempo. Eles se adaptarão à sua realidade, é só você ir com esse jeitinho fofinho que lhe é peculiar!

    Força na peruca, e felicidades procês duas! Sem segredos, totalmente livres!

  7. Sempre q leio o blog, fico feliz por ver como vcs vão amadurecendo esse 'novo caminho' q estão trilhando; e também triste (por mim!), pois também eu queria ter essa coragem e fé. O contexto é diferente, mas ver a coragem de minha tosca predileta, deixa-me orgulhosa dela; com vergonha de mim mesma por em muitas situações não ter me permitido agir, simplesmente; enfrentar…
    Lendo esse texto também me deu uma saudade apertada da minha tosca e até mesmo das suas mordidas e da sua frase feita (=P): “Amiiigaaaaaa!”.
    Estou em falta contigo, mas seu lugar no meu coração ninguém tira; e agora com Lorena!
    Bjoooo
    ILY

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