Eu conto o que está acontecendo

Hoje, faz exatamente sete meses que nos deparamos com um improvável diagnóstico: câncer. Improvável, digo, porque o câncer é como aquelas doenças surreais demais para acontecerem justo com alguém tão próximo. E aconteceu com ela, meu amor.

Desde então, eu que sou “palavreadora” por formação acadêmica, ofício profissional, e por plena devoção, fui calada. Tentei substituir minha habilidade de encontrar as palavras certas pela empatia. É que todo consolo corre o risco de ser um gatilho contra a dor alheia. Infelizmente, não detive de poderes para impedir que outras pessoas o acionassem. Logo de início, Lore pode ouvir “tudo isso passa rápido“; “por que logo com você?”; Deus sabe o que faz“; “é um momento de repensar a vida, e tirar uma lição de tudo isso“; “o seu câncer é o de menos, tem níveis piores“; “cabelo é vaidade, já já ele cresce”. 

Embora revoltadas com algumas dessas frases, especialmente com aquela em que a sabedoria de Deus é demonizada, sabemos que a maior parte de quem as profere o faz por não saber lidar com a própria impotência. Não à toa, muitas se afastam do convívio social de pessoas doentes pela malfadada incapacidade de fazer, falar ou colaborar na dada situação. Não as culpo. Ninguém sai se preparando vida afora para reagir a uma doença em seu cotidiano. Mas também não culpo, obviamente, a Lore por se sentir mal ao ver poucos vestígios de empatia ao longo de todo esse tratamento.

Eu mesma me sinto uma pessoa menor quando só me resta dar um abraço apertado a ela, durante seu choro incontido. Em parte, é para que ela encontre em mim a fortaleza que necessita e protagonize a própria dor. Contudo, nada aplaca seu ressentimento com esse processo que promete se arrastar até depois de sua última quimioterapia – agendada para daqui a um mês.

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De perto, observo seus resmungos frente ao espelho por não se reconhecer ante a falta de cabelos e pelos; ante à falta de destreza para desenhar a sobrancelha inexistente, às manchas na pele, cicatrizes de pequenas cirurgias, e frente ao desaparecimento de veias corroídas por medicamentos. Quem a vê, falante como sempre, tentando levar a vida normalmente, ignora seus suspiros de cansaço, suas pernas bambas ao caminhar, suas dores nas costas quando a medula trabalha para recompor imunidade, suas dores no estômago maltratado por medicamento, sua indisposição nos dias pós-quimioterapia. É possível que a única pessoa que a vê desnuda completamente seja eu. E olhe lá muito “talvez”, pois desconfio dos sentimentos escondidos lá no seu íntimo e pouco compartilhados para não me preocupar. Nem mesmo a mãe e irmã, que a acompanham a cada quimioterapia, têm acesso a essas aflições.

Do nosso lado, está o compromisso de estruturar tudo, da melhor forma possível, para garantir seu bem-estar. As preocupações da casa são minhas, assim como os cuidados para que a pré e a pós quimioterapia sejam amenas. Mesmo assim, não consigo dispensar o auxílio da sogra e da cunhada, que dividem a função de acompanhantes, faxineiras, enfermeiras etc. Mas não se engane: nada disso quer dizer que ela descanse.

Como tem sido o tratamento

As primeiras quimioterapias foram muito exaustivas. Febres costumam significar infecção, o que um paciente com câncer não pode contrair de forma alguma. Por isso, o mínimo sinal de febre alta nos levava, de pronto, à emergência de hospital. Cheguei a deixar listado em um pequeno bloco pessoal tudo o que não poderia faltar em caso de internação. Somos apenas as duas em nossa cidade, familiares moram distantes, por isso, eu deveria contar só comigo em caso de urgência dela. A irmã comprou uma caixa de máscaras hospitalares para que ela pudesse evitar contaminação em locais públicos. A mãe deu dicas de sucos de inhame, graviola e afins para elevar imunidade.

Aos poucos, entramos na rotina de tratamento. Em hipótese, sabíamos qual remédio dar para prevenir as náuseas e enjoos, quantos e quais dias de total mal estar, em quais deles abria a janela imunológica, o que fazer e o que não fazer. Ter uma dinâmica deixaria o tratamento mais prático e facilitaria tanto a vida dela quanto a nossa. Quimioterapia até passou a receber o apelido de colega próximo, “quimio”. Pobres iludidas! Mais que de uma hora para a outra, o corpo revelou que a dinâmica dele era diferente da nossa. Previsibilidade só de, no máximo, duas quimioterapias.

O acúmulo de medicamentos em seu organismo, porém, nos deu um outro parâmetro sobre exaustão. Cada quimioterapia passou a ser única com seus infortúnios. Lore enjoou remédios, comidas e  água. Brinquei que não a beijaria em época quimioterápica para que não enjoasse meus beijos. Vai que…! Pratos passaram a ter prazo de experimentação, a estratégia se tornou não repeti-los em sequência. Haja criatividade na cozinha, God! A imunidade caía quase nada na semana da quimio; ou despencava levando laboratório ligar para Lore alertando-a sobre leucopenia (baixa de leucócitos). Recentemente, lançamos mão de dopá-la no dia do tratamento, como forma de amenizar seu mal estar. Tem dado certo (seja lá o que signifique), salvo ela se sentir muito lesada nos dias seguintes.

Estamos cansadas pra dedéu. Mas o cansaço real é dela, da Lore que deseja viver sem restrições, se amar novamente, voltar a lecionar, e que cansou da pauta “linfoma”. Por essa razão, a entendo muito quando diz que tem vontade de desistir, mesmo sabendo que essa não é a opção.

Depois de amanhã, é antepenúltima quimio. Enquanto para alguns falta ~tão pouco, para ela, faltam meses e até anos. A certeza da remissão pode vir (e virá!) em, aproximadamente, dois meses. Da cura, em cinco anos. O exame que ela fará no primeiro mês de 2016 irá indicar a necessidade, ou não, de radioterapia. Como Lore afirma, a ansiedade é pelo dia em que ela irá se reconhecer.

Há dois dias, perguntei o que queria de Natal. Ela disse que não sabia me responder… Se eu pudesse, daria a ela o salto no tempo. No tempo, em que, oxalá, estaremos brincando de ser feliz.

Ela tira amor de pedra

O último post deste empoeirado blog, datado dois anos atrás, falou sobre filhos, o momento que consideramos ideal para tê-los, algumas inseguranças sobre isso, mas, ora, nós já os tínhamos!

É que, mesmo após termos adotado duas gatas naquela época, não sabíamos a importância que elas tomariam ao longo dos tempos pra gente. Hoje, já sentimos isso de tal maneira que nosso pequeno mundo gira muito em torno delas (e dele, Gabo, que adotamos há quase um mês); são “pessoinhas” que merecem dia a dia nosso respeito, nossa gratidão, nosso amor. A Frida, nossa (eterna) caçula, faleceu há poucos dias e, ainda que os dias sigam seu ritmo comum de vida, exigindo firmeza, responsabilidade e razão, é certo que nosso coração ainda não se recuperou da perda inesperada. Percebo que pouquíssimas pessoas ao nosso redor têm empatia com esse pesar, mas, valha-me! Empatia é coisa que pouco existe no mundo, seria até de se estranhar que ela existisse mais por nós que perdemos uma “mera gata”…

Entre mim, Lore, Zola e Gabo, é sentida uma ausência que machuca, desespera, dói, autocompadece, resigna e acalma; em um ciclo que, em algum momento, irá se transformar apenas em lembrança, ternura, saudade. Enquanto não há a renovação, preencho um pouco do vazio com mais reflexão sobre tudo, desvelando o significado daquilo que foi Frida, tem sido Zola e Gabo, e serão nossos futuros filhos. Esses que não sabemos se já existem por aí, porém, podem estar entre nós em breve. Até o momento e depois dele, tudo se resume a aprendizado. Não há como passar ileso pela vida sem aprender algo, sem se conectar com o conhecimento; quem não o faz não vive, não dialoga com os demais e com seu eu.

A maturidade que tenho hoje me permite ser muito grata até a quem me machucou, mas, para isso, torno-me grata primeiramente a mim por ter descoberto a “moral da história”. E a recente “moral da história” do falecimento da Frida, dos extensivos cuidados à Zola e ao Gabo, e da espera dos filhos, começa no meu relacionamento, esse mesmo que abre o mundo para mim e meus braços para ele.

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A Lore é responsável por me ter me cativado e por ter me tornado uma pessoa melhor.

Ela, sendo um ser humano tão frágil, pequeno, cheio de medos, receios, defeitos, como qualquer outro ser humano, é a peça da vida que se encaixa em mim, outro ser humano frágil, pequeno, cheio de medos, receios e defeitos. Ela me ajuda a evoluir para uma pessoa mais crítica, mais consciente com as consequências dos meus atos, mais responsável com o que faço pelo e contra o mundo. Ao lado dela, treino diariamente autopiedade e autocrítica. Aprendo a valorizar o simples, o surpreendente e a busca infinita por ser uma pessoa melhor. Como toda aluna problemática, não logro êxito em tudo que tenho oportunidade de aprender por um automatismo que ainda preciso frear. Sou rebelde, regrido, emburreço, e ela com sua paciência encantada não desiste de mim, nem de si. Pois, como qualquer aluna, também a inspiro, a ensino, a modifico. Foi assim que com ela aprendi a respeitar gatos e a amá-los. E, ao lado dela, é que desejo ser uma boa mãe também para os filhos que hão de vir, quem sabe daqui a pouquinho mais de 1 ano?

Quando teremos filhos

Foi estranho quando meu pai, no último Natal, disse que estava faltando um filho meu entre todos os netos de mamãe. Eu e ele possuímos um contato bastante limitado, e ele nem sabe que sou casada. Ainda assim, em vez de me cobrar um relacionamento, me cobrou um neto.

Poucos dias antes disso, quando eu estava com a Lore em BH, perguntei a ela se considerava ideal termos um filho caso ganhássemos (jura, neném!) na MegaSena da Virada. Rsrs. Bom… Quem nos conhece pouco ou muito sabe que somos duas babonas de crianças. Destinamos aos filhos de parentes e amigos o carinho que não podemos dar ainda aos nossos próprios rebentos. Em regra, sentimos o útero pular muitas vezes ao dia, e fazemos planos para quando os tivermos, sonhamos com as suas diferentes personalidades e os idealizamos brincando com as nossas gatas etc.

Voltando, sobre a pergunta, a resposta que ela me deu foi exata e felizmente a que eu esperava: “Hmm… acho que não. Temos tanta coisa para resolver em nossas vidas, para construir…” Esse pensamento em comum é reflexo da prioridade que nossos futuros filhos já têm em nossas vidas: estão em primeiro plano.

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Sara Ramirez e Jessica Capshaw com a criança que contracena com elas em Grey’s Anatomy, formando uma linda família

Temos muita coisa a resolver individual e juntamente. Já percebemos que, antes de correr atrás de adotar nossos filhos ou economizar grana para engravidar, necessitamos derrubar um monte de barreiras que nos dizem dia após dia que não estamos preparadas para termos pimpolhos na barra das nossas saias. E eu aprendi com a minha mãe e com outras mães-amigas que nunca estaremos preparadas para sê-lo. Mãe não é ler tudo sobre educação infantil e já se achar foda e pronta para passar de ano em uma matéria. Também não é um plano exato a curto, a médio e a longo prazo.

É por isso que, apesar de não termos um tostão furado em nossa poupança, o problema em ter ou não um filho hoje não é grana. Ainda com a minha mãe, entendi que “onde comem dois, comem cinco, sete”. Quando filho é nossa prioridade, para tudo damos jeito… exceto para nosso equilíbrio psicológico. Calma, calma. Não somos duas desequilibradas, eu acho. Mas somos mulheres que sabemos o quanto a nossa severa discordância sobre alguns pontos da vida pode influenciar diretamente no desenvolvimento de uma criança. Em síntese, não batalhar para completar a nossa família agora não tem nada a ver com sonhos de viagens, de estudos, de subidas profissionais e financeiras, como é fácil de se suspeitar.

Temos ciência, porém, que é mais provável demorar muito para sentirmos esse preparo e, portanto, resolvermos atropelar o tempo, ligar o ‘’foda-se’’ e corrermos para os braços da nossa prole. Mas estamos em loading, ora rezando para que o tal preparo chegue, ora pulando ondinhas para que o ‘foda-se’ reine. Enquanto isso, somos mega felizes por nossos amigos-pais-mães nos permitirem usufruir muito a fofurice de seus filhos.

Estamos levando, enquanto der, a nossa cara de brisa quando nos perguntam (coisa mais féla da putana) quando teremos filhos. E vamos sentindo o coração aquecido com duas gatas que são as primeiras a darem lição de que nascemos para ser mães.

Casa das Três Mulheres

Vocês têm, na manga, alguma pesquisa “O Estadão” pra eu saber qual a média de idade em que um casal chega à perfeição? Tenho cá comigo que nem em 50 anos de casamento parceiros chegam à perfeição. Mas também… para que perfeição se somos uma eterna construção? rimou

Durante uma DR nem todo casal é perfeito, vai vendo, a Lore me disse que sempre imaginou que um relacionamento fosse solo fértil para o autoconhecimento, assim como para o crescimento individual e para o enriquecimento enquanto ser humano. No ato da conversa, eu discordei. Claro, se tratava de uma DR, rs. Mas o meu próprio crescimento justifica muito o que ela disse. Em dois anos de relacionamento – um deles é o casamento -, descobri a minha Pilar; sem querer ou saber, ela enriquece a minha vida com sua avidez pelo conhecimento, pela justiça e pela solidariedade.

Por isso, quem me conhece não pode se surpreender muito se eu disser que adotei um gatinho, ainda que até outro dia eu fizesse parte do grupo de 90% de pessoas (olha “O Estadão” aí) que de-e-e-e-e-teestam felinos, e que acreditam que eles sejam animais independentes, nada amáveis, que transmitem doenças e não se dão bem com crianças e outros animais, blá blá blá whiskas sachê. Não pode ficar abismado também só porque herdei preconceito da minha família que, como tantas outras, se submete a uma ignorância cultural.

Certa vez, a Lore me contou que o namorado de uma amiga não gostava de gatos mas havia aceito ter bichanos em favor da paixão da respectiva namorada pelos felinos. Em sequência, afirmou saber que eu jamais faria isso por ela, e eu fiquei alegre e saltitante por ela não me obrigar a ter algo de que eu era aversa. A minha adoração animal se restringia somente à graça dos cães e aos cantos dos pássaros (<3). Inclusive, eu choramingava pelos cantos sonhando em ter um cachorro, mas o nosso contrato de aluguel sempre foi uma pedra no sapato ao proibir animal de qualquer porte nas dependências.

Contudo,  essa correria de ora viajar a trabalho ora viajar para a casa dos pais me levou a pensar no quanto a Lore deve se sentir sozinha quando não estou na cidade; ou, ainda no quanto ela é maternal e no quanto ela ama animais mais do que eu. E, como a minha mãe me ensinou que “é conversando que a gente se entende”, decidi que estava na hora de lutar pelo nosso animalzinho de estimação. Mas qual seria esse que reduziria as possibilidades de transtornos em uma microcasa? Um hamster? Nãão. Um rato? Hein? Um gato???? Um gato!!!

Foi então que pesquisei um pouco sobre os bichanos, e me apaixonei pela ideia da esposa com um gatinho em cinco temposComo eu não pensei nisso antes? Quando eu abraço uma ideia, eu só consigo pensar no que eu posso ganhar, vide a minha história com a Lore.

Para esse momento, contei com um ajuda sensacional: a Mi, mãe de dois gatos sapecas e lindos, me ajudou com dicas para mãe de primeira viagem de gatos e na busca de gatos para adoção em BH etc. Dona de um histórico semelhante ao meu – aversão a gatos durante maior parte da vida -, a Mi soube compreender a minha ansiedade e o meu receio em ter um felino em casa e foi testemunha do meu estado de graça quando recebi o aval da proprietária da nossa mansão (cof cof) para termos a little cat. Obrigada, dinda da Zola! s2

E o que era para ser uma surpresa, um presente, um filho para a Lorena se tornou o meu xodó, o meu outro amor. G-zuis, me abana! Yes!!!… mais uma vez, a Lorena me ensinando o que é viver e a Zola (nossa filha) me ensinando que felinos são uma coisinha gostosa de Deus.

Tal mãe, tal esposa. E agora?

Não sei a mãe de vocês, mas a minha é cheia de disse-me-disse popular. Embora considere a maior parte dos seus ditos populares  bastante desconexa da realidade, há algumas coisinhas para as quais eu sempre me atento e tenho muito respeito. Sabedoria é coisa séria, e é necessário suar bastante para tê-la. A minha mãe já suou muito (e continua suando), portanto, mais respeito, por favor. rs

Um desses ditos não é exclusivo dela e você, certamente, deve conhecer: “bom filho, bom marido, excelente genro. boa filha, boa esposa, excelente nora“. Na mesma linha, haveria um prognóstico materno – meio freudiano, diga-se de passagem – que defende a sina de casarmos com parceir@s parecid@s com nossa mãe. Hmmmm… bom, eu não levava esse muito ao pé da letra, mas né que estou pagando e vendo (e sentindo na pele) pra crer?

Às vezes, eu digo à Lore que ela se parece muito com a minha mãe, em situações específicas. Não sei se ela gosta da comparação, e por isso tenho me contido aos pensamentos e risinhos internos (hihihihi) a cada interseção entre elas. Mas analisem comigo se não casei com a minha mãe! Ops…

– pouco importa se a chamam para opinar sobre um determinado assunto, a minha mãe precisa dizer o que pensa e azar o seu se não seguir o conselho de uma senhora tão entrona/ informação e mente fervilhante definem a esposa. e, com esses dois ingredientes, ela tá sempre disparando um longa opinião, mesmo onde não é chamada;

– disposição (não física, ok?! xP) para ajudar qualquer pessoa. a minha mãe não precisa lembrar o nome de ninguém, porque ela chama a todos de “meu filho”, “minha filha”. é o lado maternal dela gritando que vai ajudar vc a resolver algo/ a esposa nasceu para ajudar às pessoas e precisa dar vazão a essa vocação, antes que enlouqueça. ela é muito solicita, e não se irrita em ajudar ninguém em nada;

– você pode sair com a roupa suja, mas nunca de roupa amassada. isso deve significar o mesmo que “independência ou morte” para as duas. valha-me, Deus!

alimentação e saúde são a mesma coisa para os médicos, para os doentes, para as pessoas mais velhas, para a minha mãe e para a minha esposa;

– a minha mãe é ariana, a minha esposa é canceriana. Até onde eu saiba, os arianos são chantagistas emocionais e os cancerianos são super sensíveis. De uma forma ou de outra, as duas coisas podem significar carência. E dá-lhe eu ser só uma…;

– Lorena é danada de “viradeira”, colocou a cara pra bater em uma cidade distante pra estudar e ganhar independência. A minha mãe também saiu cedo da cidade natal em busca de oportunidades e de construir o próprio caminho. Nenhuma das duas se retem ou reteve diante das dificuldades; e cada uma, a seu modo, me inspira e me orgulha demais por lutar por seus objetivos e sonhos;

– mas ok. Elas adoram se auto contradizer. Ao passo que são carentes, são lutadoras. E, ao passo que estão sempre dispostas a ajudar as demais pessoas, elas são a indecisão em carne e osso sobre o que, definitivamente, é melhor para elas. Não sei não, mas desconfio que eu seja o norte comum delas que acaba por desnorteá-las. ahaha;

– e, por fim, sem fim porque elas se parecem em muito mais coisas do que eu possa listar… Não há quem duvide que a maior (e eu diria: melhor) semelhança dessas duas mulheres está em terem a sorte (cof cof) de amar a mesma mulher. É, realmente, elas são muito iguaizinhas xP

A história que faltava contar

Chegou a minha vez de sentar em frente ao pc e tentar escrever essa história. Que história? – alguns se perguntam. Uma história que se passou há algumas semanas, quase um mês atrás, e sobre a qual eu prometi que escreveria assim que as personagens principais dela tivessem digerido tudo o que se passou e estivessem prontas para expô-la ao mundo. Era o mínimo que eu poderia fazer afinal, como eu disse, não sou eu a personagem principal da história. Mas prometi que registraria meu ponto de vista de tudo o que se passou.

Bom, mas antes preciso falar do início de tudo, de como conhecemos as personagens e por qual motivo.

Eu sempre quis ser mãe, é um sonho que eu tenho desde criança. Brincava de bonecas já pensando no dia em que teria um pequeno ser humano nos braços, sonhando com esse dia. Cresci e a ideia maternal cresceu e amadureceu dentro de mim, mas nunca deixou de ser uma certeza: eu seria mãe. Felizmente, a mulher que escolhi para ser minha companheira de vida “veio” com os mesmos sonhos e vontades que eu, e a conversa sobre filhos sempre foi uma constante no nosso relacionamento, desde o início. Sempre tivemos muito certo, também, que este sonho se realizaria quando tivéssemos o mínimo de estrutura (financeira, pessoal, profissional) para dar a um filho o que ele merecia ter. Como eu digo sempre, se relacionar afetivamente com alguém do mesmo sexo pode ser muito trabalhoso e trazer alguns empecilhos a quem quer ser mãe/pai, mas tem uma vantagem: gravidez indesejada não acontece, o filho tem a chance de ser muito bem planejado e querido pelo casal, antes de chegar. Por isso, não temos motivos pra colocar o carro na frente dos bois, como se diz.

Ainda assim, eu confesso, cheguei a uma idade (e a Lu também) que os hormônios já fazem festa dentro de mim e meu útero dá gritinhos desesperados toda vez que vejo um bebê, uma criança, ao ponto de sonhar com os filhos que virão, constantemente. Por isso, ou como causa disso, eu comecei a ler blogs (amo ler blogs) de mães, da chamada blogosfera materna, há algum tempo, e até já comentei sobre isso aqui. E entre os muitos (MUITOS) blogs maternos que eu leio, eu descobri o universo da maternidade lésbica, blogs de casais de mulheres que têm seus filhos (pelos mais diferentes métodos) e dividem suas experiências com outros casais que estão (ou estarão) no mesmo barco. Nesse universo, conheci (conhecemos) muitas pessoas interessantes, fizemos amizades, acompanhamos nascimentos, crescimentos e desenvolvimentos dos “filhos dozotros” por meio da internet. E foi nesse meio também que conhecemos duas das três personagens principais dessa história: a Vivian e a Camila.

Acompanhamos sua trajetória desde o início do blog, de quando a gravidez era um sonho “pra daqui a pouco”, a tentativa de IA* sem sucesso, toda a tristeza subsequente até a decisão de partirem, então, para outra forma de maternidade: a adoção. Esse processo durou mais de ano; mais de ano que nós acompanhamos essa história, trocando mensagens, comentários nos posts, recados no Facebook. Até um mês atrás éramos “amigas virtuais” não tão próximas, apesar do carinho e da torcida para que essas mulheres conseguissem realizar seu sonho de mãe. Foi quando recebemos um email, nos pedindo dicas sobre BH, pois elas precisavam vir para cá. No início, não nos contaram para quê, mas obviamente que desconfiamos para o que seria, afinal, nós líamos sobre o processo de adoção no blog delas e sabíamos que elas aceitavam crianças de outras comarcas, que não a de sua cidade. Ficamos empolgadas imaginando que poderiam, finalmente, ter encontrado seu/sua filho(a) aqui, mas não perguntamos nada no momento, não queríamos forçá-las a nos dizer algo que não fosse da vontade delas dizer. Nos prontificamos imediatamente em ajudá-las aqui em BH, procuramos hotéis onde pudessem se hospedar, pesquisamos passagens, nos colocamos a disposição para dar qualquer informação que elas precisassem. No final das contas, tivemos a mesma ideia, mas foi a Lu quem verbalizou primeiro: “amor, por que não as convidamos pra ficarem aqui em casa?”.

Pausa pra dizer que nossa casa é micro. Moramos numa casa de três cômodos + banheiro. Temos apenas um quarto, uma sala onde só cabe um colchão sobressalente, e a cozinha que, bem, acho que não é convencional oferecer a cozinha como quarto às visitas. Então tínhamos consciência de que nossa casa não oferecia conforto, luxo e que seria até difícil de acomodar mais duas pessoas, mas resolvemos oferecer assim mesmo, porque seria mais barato para elas e porque temos muita satisfação em receber as pessoas aqui, ainda que moremos numa ervilha.

Oferecemos a casa e falamos sobre a falta de espaço e tudo mais, e para nossa surpresa, elas aceitaram imediatamente. E enfim nos contaram o motivo da vinda. Nós estávamos certas em nosso pensamento; era a filha que finalmente havia chegado! Elas haviam finalmente conseguido a guarda de uma menininha de 2 anos, que morava num abrigo aqui em BH. Nos mostraram a foto pelo email e nós duas morremos um pouquinho, de amor, de alegria, pela criança linda, pequenina e de olhinhos tristes da foto. Ela finalmente conheceria o amor de não apenas uma, mas de duas mães! Aqueles olhinhos tristes conheceriam uma nova expressão, disso nós tínhamos certeza.

Com tudo acertado, as duas saíram de sua cidade numa quinta à tarde, de carro (passagens de avião muito caras) e dirigiram direto, sem parar, até chegarem em BH, na sexta de madrugada, mas não vieram direto aqui para casa. Pararam num posto, cochilaram, tomaram um café e foram resolver tudo relativo à pequena, ainda na sexta. Enquanto isso, eu e a Lu, no trabalho, contávamos os minutos para chegarmos em casa e podermos finalmente encontá-las (e conhecê-las!). É engraçado pensar que foi a primeira vez que nos encontramos, porque o sentimento era de que eu já as conhecia de longa data. É verdade que acompanhávamos o blog, mas nunca havíamos nem nos falado por telefone (a não ser naquele mesmo dia, que a Camila me ligou para dizer onde estavam). Ainda assim, eu sentia que estávamos nos reencontrando, e não que aquela era a primeira vez que nos víamos pessoalmente. A vida tem dessas coisas.

Aquela noite foi difícil parar de falar. As duas queriam nos contar tudo o que tinha acontecido, e nós queríamos saber tudo! Elas já haviam ido ao abrigo, já haviam conhecido sua menininha, e estavam extasiadas de felicidade. A animação era tanta que mesmo sem ter dormido nada aquela noite, permanecemos conversamos até depois da meia-noite, nós quarto, e foi difícil parar. Mas paramos, afinal, no outro dia começava a luta de verdade, a convivência real com a filhinha que havia acabado de chegar. E que luta seria…

Não vou me alongar em descrever os dias que se passaram, até porque esse post JÁ ESTÁ longo demais. Mas eu preciso dizer como tudo o que aconteceu nos marcou. Primeiro, que adoção sempre esteve em nossos planos, nós duas queremos muito adotar. Mas nunca havíamos imaginado como era realmente o processo, não só o burocrático, mas como era receber seu filho já formado, já nascido, já com uma história de vida, ainda que curta. Não sabíamos das dificuldades de adaptação e pudemos ver de perto o sofrimento da rejeição, e isso nos marcou demais. Porque a adoção é uma via de mão dupla, não são apenas as mães, os pais, que adotam o filho… o inverso precisa acontecer também, e muitas vezes essa é a parte mais difícil. Sabíamos, nós víamos, que aquelas duas mulheres tinham muito amor pra dar para a criança que as escolheu (porque eu acredito nessas coisas). Mas como exigir que uma criança, que nunca conheceu o amor, compreenda isso? Como exigir, por outro lado, que uma mãe cheia de amor não se machuque ao perceber que a imensidão do seu sentimento ainda não atingiu o coração da criança que será seu filho? Presenciar aquela situação mexeu demais conosco, nos amadureceu muito. Eu, que sou mais “manteiga derretida”, digamos assim, não consegui não me envolver até a cabeça no sofrimento daquelas mães (e daquela filha) que passavam por aquilo tudo na minha casa, na minha presença. Ao mesmo tempo que eu sofria junto, não conseguia ajudar da forma como eu gostaria. Não queria me fazer de intrusa naquela história, afinal, elas precisavam vivê-la enquanto família que estava se formando, e eu sentia que nossa interferência poderia ser mais prejudicial do que benéfica. Em contrapartida, não podia virar minhas costas para a situação, afinal eram minhas amigas ali, eram pessoas que eu gostava, que eram importantes pra mim e que eu não queria ver sofrer. Mas elas estavam sofrendo, e eu também, por tabela.

Nós ajudamos como pudemos, apoiamos como pudemos… E, graças a Deus e a bendita assistente social, o pior passou. Que alívio foi chegar em casa, depois de um dia tenso no trabalho (em que eu fiquei angustiada, chorei muito, rezei muito, finalmente escrevi um email para as meninas com tudo que estava passando pela minha cabeça no momento) e encontrar a Vivian sorrindo (sem lágrimas nos olhos, que me partiam o coração, finalmente) e a Camila com o semblante bem mais tranquilo, aliviada, e a pequena calma, deitadinha, com suas bonecas. Aquele dia eu havia saído de casa e deixado três pessoas em frangalhos; voltei e encontrei PAZ. Sim, as coisas não estavam 100% ainda. sim, havia um caminho longo, bem longo a ser trilhado. Mas agora eu conseguia acreditar que as coisas realmente aconteceriam como deveriam acontecer, no seu tempo, mas aconteceriam.

Como nós já dissemos para as duas, eu e a Lu somos privilegiadas por termos acompanhado essa história de perto. Nos sentimos assim porque, em uma semana, vimos uma família se construir em nossa frente, em nossa casa, diante dos nossos olhos. Vimos a alegria sem fim de uma perspectiva; vimos o sofrimento e o impacto da primeira realidade, as dificuldades de uma situação para qual mãe nenhuma se preparou, jamais, na vida; e vimos os cacos serem remendados, os laços começarem a ser construídos, o amor começar a tomar forma, bem diante da gente. E eu garanto para vocês, nunca presenciei nada mais mágico em toda minha vida! Ouvir o primeiro “mamãe” de uma criança, quando ela ainda nem sabe o que é uma mãe, pra que serve essa mãe e o tamanho do amor que contrói essa mãe; ver os sorrisos sem fim das mulheres que, até ontem, eram apenas mulheres e, agora, diante do som dessa palavrinha mágica, se tornam a razão da vida de uma criança; ver os dois olhinhos negros e tristes da foto do email ganharem luz e um sorriso de genuína felicidade, ainda que eles não compreendam perfeitamente o que está se passando em sua vidinha, porque até então não conheciam o sentimento que vão acompanhá-los, agora, para o resto da vida: o amor de mãe.

Acho que só mesmo quando for a nossa vez, o nosso momento de viver tudo isso, vou conseguir sentir algo tão forte quanto senti nessa uma semana em que recebemos a Vivian e a Camila em nossa casa. Mesmo hoje, relembrando aqueles dias enquanto escrevo esse testemunho (gigantesco), sinto uma reviravolta de sentimentos, revivo muito do que aconteceu. Ontem mesmo a Lu comentou comigo, enquanto líamos o post mais atual no blog delas “é como se vivêssemos tudo de novo, né?”. É, é sim, porque de tão intenso, ficou marcado bem forte nos nossos corações. Sentimos uma alegria imensa em saber que essa família está, hoje, formada. Sentimos um orgulho gigantesco dessas duas mulheres, que conseguiram lidar com seus medos, suas inseguranças, abrirem seus corações, se despirem de seus preconceitos, para acolher uma criança carente de amor. Sentimos saudades dos dias intensos que passamos juntas, das alegrias que dividimos, dos papos, das risadas, das gracinhas, do cheiro de criança em casa, da vozinha, do sorriso com poucos dentes e cheirinho de mingau. Sentimos, principalmente, gratidão por essa família ter nos acolhido (bem mais do que o inverso, como elas pensam) em seus corações e ter nos permitido fazer parte da sua história.

Amadurecemos muito, eu e a Lu, com essa experiência. Compreendemos que  maternidade é uma coisa muito maior, ainda mais grandiosa do que supunhamos. E continuamos sonhando com ela, continuamos sonhando inclusive em adotar uma criança, mas hoje temos consciência, por termos visto de perto, que não é um sonho cor-de-rosa. Ela exige maturidade, além de todo o amor do mundo. Compreendemos que temos um caminho bem longo até darmos o passo da maternidade. Mas hoje, graças a essa oportunidade que tivemos, sabemos que o caminho não é só flores, mas também não será só pedras. E, principalmente, sabemos que teremos o apoio das amigas queridas com quem dividimos dias intensos de  alegria, tristeza, emoção e amizade, que jamais esqueceremos.

Do primeiro ano de casamento e sua (des)rotina

Hoje, em vez da aula de spinning, um telefonema me fez voltar correndo para casa afim de aproveitar as últimas horas da noite ao lado da minha Lore. Não estava programado, mas ela terá que viajar amanhã a trabalho, enquanto eu sigo na minha rotina agitada de trabalho em agência. Serão poucos dias, e eu sei que, uma hora ou outra, terei que me acostumar a essas viagens repentinas. Faz parte da profissão e também porque é de rotina que vive um casal. E, por falar em rotina, na próxima semana completaremos um ano de casamento.

Sabemos que, após a junção dos nossos paninhos de bunda, muita gente ficou curiosa sobre o desenrolar da vida a duas. E se não matamos essa curiosidade, foi mais em função da delícia que era vivê-la a contá-la. rs. Não exigimos para nós o papel de especialistas quando o assunto é casamento. Portanto, nada de dizer que isso faz parte do início, que só poderemos nos considerar experientes no matrimônio quando esse completar os seus zilhares de anos e blá blá de quem adora ser superior em tudo e talz. Acredito piamente que a nossa rotina não diferencia em grandes coisas da rotina de tantos outros casais.

Contudo, seria indigno justificar a delícia desse primeiro ano simplesmente por ter sido o primeiro e da alta probabilidade de tudo parecer uma eterna lua de mel. A rotina, que inquieta qualquer geminiano (esta que vos fala) sagaz pelas aventuras fictícias mais esdrúxulas, foi o melhor ingrediente para que tivéssemos a certeza que toda a luta anterior a esse ano valeu a pena.

Eu gosto, particularmente, de uma cena que aconteceu há pouco tempo conosco (gosto tanto que conto pra todo mundo, detalhe básico se você que nos lê identificar alguma familiaridade na situação), quando da compra da nossa TV. A necessidade de aquisição daquela que, até pouco tempo atrás, era item supérfluo para mobília da casa surgiu ao encontro da nossa paixão por cinema e da minha cegueira e chatice (conjunta) em assistir filme em notebook.

Então, parar no meio do corredor do shopping e pensar que, há um ano, ignorávamos a futura escolha de uma TV para podermos assistir a filmes em uma tela maior – sendo que grande parte da mobília da nossa casa foi construída a partir de colaborações amigas – é sim uma conquista. Não da TV em si, é claro. Uma conquista por estarmos conciliando grandes sonhos de vida e pequenos desejos cotidianos.

Pode parecer bobo, e é. Porém, a rotina é feita disso: das pequenas coisas que não imaginamos que sejam importantes, e que se tornam essenciais para encher nosso peito de orgulho; tal como quando a gente já consegue avistar um momento em que, finalmente, teremos um espaço maior e mais aconchegante para morar, quando nos damos ao pequeno luxo de adquirir uma máquina de lavar ou conseguimos desentupir o ralo; também quando constatamos que nenhuma receita de internet dá certo na nossa cozinha; quando já sabemos decoradamente a frase que a outra vai disparar em determinada situação; e, ainda, simplesmente quando vemos que podemos largar o emprego e dar a cara pra bater em outro projeto não porque estejamos bem financeiramente, mas porque a companheira nos dá a certeza de que “damos um jeito”.

Simbolicamente, nada é menos, e tudo tem sim a mesma proporção quando se trata de rotina. E ter a mesma proporção significa ter um elevado grau de dificuldade e de satisfação constantes. Somente porque a grandeza da felicidade reside na união, que não se embarreira no cansaço, no mau humor e na redução de horas/sexo, em detrimento de horas/trabalho/estudos.

É, por isso, que prefiro chamar de (des)rotina: a rotina do casamento que é a aventura que todo geminiano pediu a Deus!

</post criado há dois dias e postado apenas hoje, sabe-se lá o porquê>